A tecnologia pode tanto moldar quanto tensionar nosso bem-estar mental. Este artigo explora como o papel da IA na saúde mental abre novas possibilidades… e novos dilemas.

A era digital trouxe muitos benefícios para a humanidade. Isso é especialmente visível no campo da comunicação, onde a tecnologia nos permite estar mais conectados do que nunca ao resto do mundo. Seja em um deserto, em uma montanha ou em muitos outros lugares antes impensáveis, os celulares nos permitem manter contato com outras pessoas como se estivéssemos no mesmo lugar. No entanto, o uso constante deles também criou um problema.
No mundo atual, a tecnologia não é apenas parte das nossas vidas, mas também molda a maneira como nos sentimos, pensamos e nos relacionamos. Ela pode nos confortar e nos dar segurança, mas, ao mesmo tempo, pode criar hábitos que afetam nosso bem-estar mental — um claro exemplo disso é a nomofobia.
Aqui está a tensão central deste texto: a tecnologia pode estar nos dois lados da equação. Quando usada em excesso, pode alimentar hábitos ligados à ansiedade e à dependência (como na nomofobia); contudo, o mesmo ecossistema digital pode oferecer suporte assistido por inteligência artificial (IA) que ajuda as pessoas a gerenciar esses efeitos, como a terapia assistida por IA e, uma opção mais controversa, a terapia com IA.
Este artigo examina a nomofobia e explora como a tecnologia pode desempenhar ambos os papéis: contribuir para o problema, ao mesmo tempo em que oferece formas de abordar suas consequências através do uso da IA na saúde mental.
Nomofobia: ansiedade do mundo real, diagnóstico não oficial
Nomofobia (NO MObile PHOne PhoBIA) é um fenômeno psicológico definido como o medo irracional ou a ansiedade intensa que as pessoas sentem quando não conseguem aceder ao telefone, ficam sem bateria ou cobertura, ou perdem a capacidade de se comunicar por meio dele.
De acordo com um artigo no Journal of Family Medicine and Primary Care, a nomofobia está ligada à crescente dependência tecnológica e à integração do telefone na vida cotidiana.
Embora o estudo observe que a nomofobia não é oficialmente reconhecida como um transtorno mental, ele alerta que pode causar sintomas semelhantes a outros transtornos de ansiedade — como nervosismo, agitação, taquicardia ou dificuldade de concentração. Também pode impactar a saúde mental, o desempenho academico ou profissional e os relacionamentos interpessoais, especialmente para aqueles cujo smartphone é o principal meio de interação.
Outras pesquisas mostram que a prevalência da nomofobia varia consideravelmente em diferentes grupos populacionais, com taxas que variam de 15.2% a 99.7%, dependendo do contexto cultural, nível educacional e idade. É especialmente comum entre adolescentes e jovens adultos entre 15 e 30 anos, mas também afeta adultos entre 30 e 50 anos, particularmente aqueles que usam os telefones para fins de trabalho ou como ferramenta para organizar atividades diárias.
Esta base se tornou ainda mais crítica na era da nomofobia pós-pandemia. O período de lockdowns globais forçou uma mudança abrupta e sustentada em direção à hiperconectividade, transformando o smartphone em um dispositivo essencial e sempre ligado para o trabalho, educação e sobrevivência social.
Estudos mostram que os hábitos profundamente enraizados de engajamento digital constante — a compulsão de verificar atualizações e estar sempre acessível — persistiram em grande parte.
Os dois lados da tecnologia e saúde mental: moldando problemas e soluções
Fenômenos como a nomofobia são um alerta sobre o impacto psicológico que a consumo descontrolado de tecnologia pode ter em nossas vidas diárias. Contudo, paradoxalmente, a tecnologia apresenta dois lados: é tanto parte do problema quanto pode ser parte da solução.
Por um lado, é claro que o surgimento da nomofobia está estritamente ligado à tecnologia e à sua integração em nossa vida diária. Por outro lado, as tecnologias emergentes também podem trazer uma oportunidade para explorar seus benefícios em outras áreas de nossas vidas e até mesmo buscar nos ajudar a lidar com os efeitos da dependência tecnológica.
Nesse sentido, uma das tecnologias mais promissoras é a inteligência artificial (IA), que, após ser por muito tempo um recurso reservado para ambientes industriais, passou a ser integrada em áreas como o bem-estar e a saúde mental.
IA: de recurso industrial a solucionador de problemas diários
A inteligência artificial é um ramo da ciência da computação que cria sistemas capazes de realizar uma ou mais tarefas que normalmente exigiriam inteligência humana, como aprender, raciocinar, perceber, compreender a linguagem ou tomar decisões.
O seu objetivo é dotar as máquinas da capacidade de analisar dados, reconhecer padrões e se adaptar ao seu ambiente para resolver problemas de forma autônoma. Isso levou à sua integração em múltiplas áreas das nossas vidas. Desde 2023, o ritmo de adoção da IA acelerou exponencialmente, levando esta tecnologia antes de nicho para os setores de consumo, corporativo e público a uma taxa sem precedentes.
Hoje, a IA é uma ferramenta comum em diferentes ambientes — tanto pessoais quanto profissionais — e, em alguns casos, está sendo usada até como consultora. De profissionais ao público em geral, mais e mais pessoas sentem a necessidade de explorar esta nova tecnologia e ver do que ela é capaz.
A IA está sendo cada vez mais usada por organizações — que vão desde escritórios de advocacia até laboratórios biomédicos — o que resulta na redução de anos de trabalho a meros minutos. O seu uso também se estende ao atendimento ao cliente, por meio de chatbots, e até mesmo chegou ao nível executivo: em 2022, a empresa de tecnologia chinesa NetDragon Websoft, uma empresa de capital aberto, nomeou uma IA chamada Tang Yu como CEO.
Se esta tecnologia já pode analisar milhões de pontos de dados, tomar decisões estratégicas e até administrar empresas, poderia também se tornar uma terapeuta eficaz para abordar problemas como a nomofobia? Esta questão cresce à medida que mais pessoas procuram a IA para aconselhamento.
Existe uma tendência em desenvolvimento em direção ao uso da terapia com IA. Nos últimos anos, surgiram plataformas e aplicações impulsionadas por IA especificamente projetadas para fornecer apoio psicológico personalizado, gerando tanto entusiasmo quanto preocupações.
Alcance e limites da IA na saúde mental
O uso da IA no campo da saúde mental não é mais uma projeção futurista, mas uma realidade: representa uma nova fronteira, estabelecendo opções antes impensáveis — como a terapia com IA, que coloca a IA no centro de uma opção de apoio psicológico prontamente disponível.
O uso da IA entre os profissionais de saúde mental está a crescer. Um estudo na Frontiers in Psychology envolvendo especialistas dos Estados Unidos, Reino Unido, Canadá e vários países europeus descobriu que 43% dos profissionais de saúde mental usam atualmente ferramentas impulsionadas por IA em seu trabalho, especialmente para tarefas como pesquisa clínica ou redação de relatórios.
Isso é apenas da perspetiva do terapeuta. No entanto, a adoção da IA não se limita à clínica; o público em geral também está cada vez mais a recorrer a esta tecnologia para suporte em saúde mental.
Este interesse duplo solidifica as duas formas distintas de serviço que estão a emergir atualmente:
- Terapia assistida por IA, onde a tecnologia apoia especialistas humanos com diagnósticos e administração;
- Terapia com IA, onde aplicações automatizadas e chatbots fornecem suporte emocional direto e em tempo real ao utilizador.
Terapia assistida por IA
Já existem estatísticas disponíveis sobre a adoção de soluções de terapia assistida por IA. De acordo com números do Fórum Económico Mundial, 32% das pessoas em todo o mundo estariam dispostas a participar de terapia assistida por IA. Na Índia, por exemplo, o interesse chega a 51%, enquanto nos Estados Unidos e na França ronda os 24%.
Estes números ajudam a explicar a expansão de apps de IA com diversos usos — desde guiar exercícios de respiração e gerenciar a ansiedade, até implementar sistemas que detectam padrões emocionais na linguagem para recomendar estratégias terapêuticas.
Terapia com IA
Embora ainda haja dados limitados sobre a terapia com IA, a evidência disponível — ainda restrita — aponta para potenciais resultados promissores. Uma revisão de 15 ensaios clínicos descobriu que os agentes conversacionais baseados em IA alcançaram melhorias moderadas nos sintomas de depressão, bem como um leve aumento na saúde emocional.
No entanto, a maioria dos ensaios foi de curta duração e envolveu pequenas amostras, de modo que os efeitos a longo prazo e as implicações éticas permanecem incertos. Como esperado, isso traz oportunidades sem precedentes, mas também levanta controvérsias complexas.
Terapia com IA: limitações e preocupações
Apesar dos rápidos avanços na tecnologia de IA, a terapia com IA enfrenta limitações fundamentais quando se trata de saúde mental. Embora represente um passo significativo em acessibilidade e inovação, a sua crescente presença nos cuidados de saúde mental também exige cautela.
A relação terapêutica é construída não apenas na comunicação, mas na confiança, empatia e na sutil compreensão das emoções, elementos que nenhum algoritmo pode replicar totalmente.
As suas capacidades de resposta se baseiam na análise de dados e na deteção de padrões, o que significa que as suas recomendações são feitas através de generalizações que nem sempre se encaixam na complexidade e singularidade do indivíduo. Além disso, falta empatia genuína, uma qualidade humana indispensável nos processos terapêuticos.
Além das questões já mencionadas, várias outras controvérsias decorrentes cercam a terapia com IA, incluindo:
- Privacidade e segurança: as plataformas de IA frequentemente requerem acesso a informações pessoais sensíveis, levantando preocupações sobre como esses dados são armazenados, compartilhados ou monetizados.
- Vieses algorítmicos: a IA aprende a partir de bases de dados e pode produzir vieses culturais, de gênero ou raciais que afetam a qualidade ou a imparcialidade das suas respostas.
- Regulamentação: sem estruturas legais claras, seria difícil determinar quem deve ser responsabilizado se uma IA fornecer orientação inadequada ou prejudicial.
- Manipulação: os sistemas de IA podem ser projetados para promover certas mensagens ou valores, abrindo a possibilidade de que a sua orientação responda mais a interesses externos do que ao bem-estar emocional do utilizador.
Entre conexão e dependência
A relação entre tecnologia e saúde mental reflete um profundo paradoxo e exige um equilíbrio complexo.
A nomofobia revela a facilidade com que a nossa conexão com a tecnologia pode se transformar em dependência, enquanto o aumento do uso da IA para assistência em saúde mental ilustra como a mesma inovação que alimenta a ansiedade também pode ajudar a entender e apoiar melhor o bem-estar emocional.
Estas duas realidades coexistem, revelando que a questão não é se a tecnologia ajuda ou prejudica, mas como ela é usada, entendida e integrada em nossas vidas.
Ainda assim, esse progresso levanta questões importantes sobre os limites do que as máquinas podem realmente oferecer em um campo tão humano. À medida que a IA continua a evoluir a uma velocidade sem precedentes, o seu papel na saúde mental irá depender das intenções e dos limites que estabelecemos. Embora os algoritmos possam guiar, ouvir e até confortar, a profundidade emocional e a empatia que definem o cuidado humano permanecem insubstituíveis. A compreensão profunda e a conexão interpessoal estão no centro da interação humana.