Os reflexos da hiperconectividade pós-pandêmica no diagnóstico de nomofobia

Pós-pandemia, nossa dependência de smartphones se intensificou, alimentando a nomofobia, o medo de ficar sem o celular. À medida que a hiperconectividade molda nossas vidas, entender seu impacto na saúde mental é mais importante do que nunca.

Cinco anos depois, é fácil esquecer o quanto a pandemia mudou todos os aspectos das nossas vidas, especialmente a saúde mental. De um dia para o outro, nosso cotidiano deu reset e tornou-se completamente dependente da hiperconectividade. Seria a nossa salvação em meio ao duro isolamento, que chegou a 260 dias na Austrália. 

Você lembra desse momento? Escolas, escritórios e comércios fecharam. As ruas e parques ficaram vazios. E nós estávamos trancados em casa, utilizando celulares e computadores para trabalhar, estudar, socializar, celebrar ou até mesmo se despedir de entes queridos.

O pico da pandemia

Desde o lançamento do iPhone em 2007, o consumo de smartphones disparou. O que, há 18 anos, era considerado um item de luxo, hoje é uma necessidade indiscutível para milhões de pessoas.

Em 2016, mais da metade da população mundial tinha um smartphone e, em 2019, o uso médio superava três horas por dia. A essa altura, os celulares passaram de uma mera ferramenta de contato, para um universo de múltiplas possibilidades, onde poderíamos nos divertir, trabalhar, estudar e interagir. 

Em 2020, a pandemia chegou e foi quando esses dispositivos tornaram-se nosso meio de sobrevivência. Pesquisas feitas entre 2020 e 2021 apontaram um aumento de quase 40% do tempo em frente às telas entre adultos, agravado pelo trabalho remoto, aulas online,  distanciamento social e necessidade constante de se atualizar sobre a COVID-19.

Nos Estados Unidos, por exemplo, o tempo médio aumentou de 3 para 5 horas por dia durante a pandemia, o que gerou preocupação sobre os efeitos a longo prazo do uso excessivo de celulares e outros dispositivos digitais.

Nomofobia: o novo normal

Estudos realizados em diferentes países demonstram a universalidade da nomofobia, o  medo de ficar sem celular, embora sua intensidade varie de acordo com a idade e as circunstâncias das pessoas.

Jovens adultos em Israel relataram níveis de nomofobia significativamente mais altos durante o confinamento, frequentemente associados a um aumento da ansiedade e da depressão. Estudantes de medicina na Índia passaram por situações semelhantes, aumentando sua dependência em smartphones por conta do estresse e da pressão acadêmica. 

No Vietnã, os adolescentes apresentaram uma diminuição na qualidade do sono e da concentração.

Até mesmo professores do ensino básico na China, que sempre estiveram do outro lado da sala de aula, relataram uma maior dependência dos seus dispositivos, mostrando o quanto os smartphones já fazem parte da vida profissional e pessoal.

Repercussões sociais e emocionais pós-pandêmicas

Além do tempo que passamos em frente à tela, a pandemia também impactou profundamente nossas interações sociais. A quarentena provocou a solidão e o isolamento, que ainda ecoavam mesmo após o afrouxamento das restrições.

Crianças foram um dos públicos mais afetados nesse aspecto. Suas habilidades socioemocionais e sociocomunicativas foram prejudicadas, especialmente por quem vivia sua primeira infância neste período ou para quem era de famílias de baixo nível socioeconômico.

Adolescentes e adultos também experimentaram maior solidão e ansiedade social, por não poder simplesmente sair de casa e seguir com o seu dia, suas interações, seus hábitos fora dos limites de suas residências. Porém, mulheres e pessoas com questões pré-existentes de saúde mental ou apoio social escasso foram aqueles que mais sentiram com as mudanças na dinâmica da rotina.

Esses dados mostram que as condições provocadas pela pandemia não eram temporárias. Pelo contrário, os sintomas do isolamento social são sentidos até os dias de hoje, e a nomofobia segue crescendo.

Uma rotina híbrida sustentada pela hiperconectividade

O confinamento chegou ao seu fim, mas o vício em celulares se manteve. Mesmo que não seja mais necessário acompanhar o noticiário pandêmico, o desconforto por não estar conectado com o mundo ainda persiste.

Atualmente, em 2025, os norte-americanos passam pelo menos quatro horas em smartphones, checando suas notificações 205 vezes por dia. Esse comportamento é reflexo da dependência social, educacional e profissional da tecnologia que continua permeando nossos dias.

Portanto, a hiperconectividade e a fadiga social que é desencadeada por essa constante interação com a internet, são aspectos –nada – temporários.

O preço da hiperconectividade 

O preço que pagamos por estarmos conectados quase integralmente ao mundo, é parcelado e com juros. 

Na Itália, por exemplo, em 2022, os adolescentes estavam significativamente mais hiperconectados do que em 2019, e aqueles com alto engajamento nas redes sociais tinham aproximadamente 1,4 vezes mais chances de apresentar desafios no bem-estar social e psicológico. 

Enquanto isso, estudantes universitários no Brasil e na Índia relataram que os padrões de hiperconexão — verificar obsessivamente as notificações, fazer múltiplas tarefas entre aplicativos e estar sempre acessível — se correlacionaram fortemente com a nomofobia, sono interrompido, ansiedade e enfraquecimento da vida social.

Estudos da Turquia mostram que, após a flexibilização das restrições de COVID, os adultos vivenciaram aumentos significativos tanto na nomofobia quanto no vício em celulares E na Grécia,  quanto mais conectados  estavam os usuários (por meio de seguidores, chats e uso ativo de aplicativos), maiores eram as chances de de desenvolver ansiedade, estresse e nomofobia.

Diante desse cenário, podemos perceber o quanto a hiperconectividade influência o aumento considerável nos casos de nomofobia mundo afora. 

A maré contra a hiperconectividade

É fato que somos  vítimas de um sistema que exige a hiperconexão. Percebendo isso, muitas pessoas, especialmente a geração Z, estão buscando uma vida mais offline, trocando smartphones por celulares flip e blackberries ou até mesmo fazendo atividades que não exijam internet.

Esse pequeno, mas crescente movimento destaca não só a onipresença da tecnologia entre os seres humanos, mas também a necessidade de recuperar o controle frente à essa dependência.

Então, sim, existe um lado positivo: a conscientização. Estamos reconhecendo as implicações psicológicas, sociais e de produtividade relacionadas ao uso excessivo de celulares, e estabelecendo limites para poder prestar atenção no que realmente importa e é urgente: o presente.

No fim, a pandemia de COVID-19 alterou severamente nossa relação com a tecnologia. Os smartphones continuam sendo indispensáveis nos dias de hoje e esse apego advém em parte pela necessidade e em outra pelo hábito, pelo vício.

A nomofobia não é apenas uma palavra. É uma consequência da interconexão entre o real e o digital, entre o emocional e o racional. E apesar da hiperconectividade ser conveniente, ela também é um claro lembrete de que precisamos gerenciar a nossa relação com o digital.


Se você acha que está usando mais o celular do que gostaria, recomendamos fazer o teste de nomofobia. Lembrando que é apenas um exercício e não um diagnóstico. Somente especialistas em saúde mental poderão fazê-lo.

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